COTIDIANO DE UMA LÁGRIMA

Publicado: 1 de junho de 2012 em Fatos

sarjeta mendigoHoje vi algo comum, mas que deveria, simplesmente,  ser cena forte e incomum. Um bêbado deitado na sarjeta, largado, qual cometa, que vaga os céus a vadiar e em momento inoportuno, distante e apagado, cai soturno e de repente, quase sem ninguém notar!

sarjeta cao e mendigoOlhei distante, apático, acostumado a tal cena, cotidiano ordinário simplesmente a me levar. Mas fixei a cena vista, parei o meu olhar: a seu lado um quadrúpede, cachorrinho desnutrido, tão magrinho e tão ferido, fez meu coração cortar! Sou amante de animais, isso é fato popular, e esse quadro tão chocante, faz a lágrima em semblante, simplesmente transbordar.

sarjeta cao e amigoAproximei-me do ser, fui a ele questionar, o porquê daquela cena, o porquê daquele par. Ele me sorriu sem graça e tentou me explicar: disse que não tinha casa, disse que não tinha lar, mas tinha seu companheiro, seu cachorro escudeiro, que o protege em noites frias e consola em silêncio, seu diário lamentar.

sarjeta loucoMostrou-me ser alguém letrado, ser vivente e estudado. Mas também mostrou na fronte ser uma alma errante, sem alegria no semblante, vivendo seu dia-a-dia, tal como o cometa errante.

Pedi-lhe o cão, para tratar e dar um lar, mas ele em tom veemente, disse simplesmente não, esse ser que me acompanha não ésarjeta cao “objeto” a se dar, é um ser vivente e amado, podendo até ser mal cuidado, mas é um ser que também ama, mesmo alguém jamais amado!

Surpreendeu-me o coração e entre ambas as raças, houve afago e união. Explicou-me que o “ser”, aquele sarjeta amorcachorrinho mal tratado, feridinho e desnutrido, era seu bem mais precioso, qual família, algo honroso. E pediu-me algo: um saco de ração. Pediu-me, como sempre pedem, mas não algo para si, pediu algo para o cão!

Comprei o tal saco pedido e levei a seu encontro. A emoção foi incontida, o choro copioso, agradeceu imensamente, sorriu farto e generoso.

sarjeta cao feridoA calda do cachorrinho pôs-se a movimentar e com aquela simples ração, houve alegria, irradiar. Notei que aquele ser, maltrapilho na calçada, era alguém especial e tinha também seu par. Sorriu, agradeceu, afagou, emudeceu!

sarjeta vagandoMe disse que toda a alegria e toda a honra em sua vida, era ver seu cachorrinho ter dignidade e comida.

Fugiram-me as lágrimas, bem como as palavras. E o pobre mendigo sujo, pôs-se de novo a vagar. Entrou pela sarjeta, qual cometa a vadiar e foi pra longe, acompanhado, de seu amado e inseparável par.

TATO, FEBRE, ATO.

Publicado: 24 de maio de 2012 em Fatos

tatoContato remoto, falar disperso, sorriso calado, sentir submerso.tato afago

Afago, tato, toque, contato. Abraço viril, pele sensível, desejo febril, som inaudível.

Simbiótica relação de tortura cruel, um tato afago2elevado grau de loucura no céu; forte sabor, doce mel, amargo frescor, adocicado fel.

tato relogioOlhar dissonante, ruptura inconstante.

Vassalo servo do afago sem fim,  odiosa hora, que marca, implicante, o momento finito para esse afago ter fim.

tato batida na portaBatida na porta, sorriso alertado, invejosa paródia tentando, sem logro, findar e cessar o sutil breve ato. tato chama

Mas ato é viril, sutil lisonjeiro, não cessa nem dorme, renasce ligeiro. Corre profundo, no meio do mundo, no cerne do ser, e faz, sem perguntas, a chama crescer.

Findar do ato, pensar sensato.tato olho

Olhos vermelhos, qual sangue a correr, diamante de vidro faz veia crescer. Parece tortura, tal qual a loucura, do sentido visão, ter no ato de orgulho, recebido o vulcão do farto murmúrio.tato cerveja e riso

Dialogo constante, olhar preciso, “arquitetar” juvenil, cerveja e riso.

Certeza de sentir e desejar. Na beleza da iltato desejousão, ter esperança e gratidão para esse ato de contato, em emoção se consumar.

Tato, que toca a pele a desejar.

Febre, que aquece o corpo a delirar.

Ato, que faz o fato consumar.

TOMBAR

Publicado: 19 de maio de 2012 em Fatos

tombo3Do solo ao chão, do ventre ao vão, sapato alto, grito do arauto, criatura esbelta, elegante e obtusa, quadrado composto, cena confusa.tombo4

Escada estática, perna errática atenção confusa e tropeça a musa… do solo ao chão, joelho e mão, queda controlada, susto e pancada.tombo2

O que foi isso, que confusão, como lograste, em tão pouco tempo, sair do espaço e de repente, ver corpo inteiro do solo ao chão?

tombo6Sorriso farto, meio sem graça, Mona Lisa exposta, vê mas disfarça… Disfarço não, estava sim e até de âncora eu me vali, mas tombo certo foi o que vi e a negra gata que estava ali, momento a outro, caiu aqui.

Do solo ao chão, olhei pro lado e vi o corpão.

tombo7Caiu, sorriu, levantou e saiu.

TEMPESTADE NEURAL

Publicado: 7 de maio de 2012 em Fatos

remediosseringaCultura líquida, comprimido; xarope espesso, deprimido; comprimido azul, sem libido; balinha festeira, barulho e zoeira. Resta a pergunta: Existe mesmo um pensar com o veneno nas veias pela mente a circular?

Segue a história…

imageNo paradigma emocional, ser ausente, irracional, o mesmo órgão de entrada, órgão sutil e vital, que ingere o alimento e o líquido exemplar, também conduz ao organismo a falta de escrúpulos, farta droga, ignorância, flagelo auto-medicar.

Exaurir os sentidos, esgotar os já cansados e combalidos, bombardear de informação, sutil desejo: medicação.

largar no mundoA competição e a vida em “união”, obriga-nos a sermos inteligíveis, amar, gozar, casar, procriar, cuidar, preparar e, depois do trajeto, o destinado objeto, à vida jogar.

O anti-herói, o que corrói, o que diverge do roteiro é taxadodesordem desordeiro, pois do caos cotidiano mescla o próprio caos profano.

A todo momento e no relógio da vida, a cada rodada, a obrigação de ser bom nos é sutilmente imputada. E se fugir desta ordem, cria-se caos e drogas1desordem? O que fazer, a quem recorrer?

Surge ela, a mágica alquimia, pílulas, pó, bebida e covardia!

Segue a história…

mimado3Há também um lado sombrio que pode a vida trilhar, onde o ser gerado, criado, que foi constantemente  mimado, impõe, por covardia, o seu próprio pensar. Pais despreparados, ao ouvirem desejos, os acatam como ordens e nem sequer imaginam, que favorecendo tal mimar, expõem criaturas que deveriam ocultar.

mimado2Acatam e tornam seus rebentos, com tanto zelo criados, em parasitas mimados, em animais purulentos. E a isso, a essa falta de limites, comparados ao próprio inferno, o denominam incondicional amor materno e paterno.

Segue a história…

corpoE no caminhar humanitário, do corpo humano, igualitário, vários órgãos vitais já foram tratados como palco, não cenário. Teoria e perecer. A medida dos séculos, estudiosos e céticos, a cada órgão, sozinho, atribuía o viver. rins

Primeiro foram os rins, venerados e cuidados. Depois coraçãoveio o coração, bomba de fluido e emoção. Ao trilhar do caminho, descobriu-se na ênfase que o cerebro2condutor sentimento, que conduz ao lamento e a alegria incessante, que constrói fortaleza e destrói o semblante, é o cérebro humano, repudioso inconstante.

Segue o caminhar, e a evolução dita humana, deve continuar. Culto a inteligência, vasta cultura, sapiência. Mas que órgão enfadonho, o tal cérebro, medonho, que é toda razão e todo pensar. cerebro amor

Seria então correto ao amante, à sua escolha carnal, desta maneira afirmar: Te amo do fundo do meu cérebro e para sempre vou te amar?

Segue a história…

vida sem vidaRedundância circular. Voltar a início, da medicina singular, pois ela é toda causa e toda cura e não há remédio ou postura que a tente consertar, pois grandeza vivida, sem proeza ou ferida, é grandeza pequena, síntese,  é vida sem vida.

Segue a história.

Engodo

Publicado: 6 de maio de 2012 em Fatos

engodo

No horizonte com fronteiras, no céu azul sem barreiras, na multidão particular, vasto sorriso, tênue flertar.

E quais possibilidades são, de trazerengodo1 do mote à mão, veste alva a caminhar, com sorriso perigoso, andarilho e certeiro, passo longo e ligeiro, sua presença alcançar?

Como fugir, como lutar, por que ceder, por que parar?

antiteseantitese1Delito da boca ao tato, da fala ao ato, do conceder ao interromper, do alvorecer ao crepúsculo, do enaltecer ao minúsculo… do calar e do falar.

Engodo satisfatório e necessário, frio gelo incendiário.

engodo sentidosA mão que redige, corrige. O cérebro que pensa, reflete. A boca que fala, por tantas conseguintes, também cala.  O nariz que sente o odor, se desagradável e apavorante, suprime a mensagem, trai o receptor. O ouvido que ouve, resvala e o corpo que sente o simbiótico sentir, cessa rotina, anseia o porvir. 

Posicionar os sentidos, dar vazão aos engodo2ouvidos, dar movimento aos membros, captar luz às retinas, sentir o gosto palpável das aspirinas, deixar cheirar o enxofre em pleno ar, exaurir-se em tentar e na filosofia brutal, deste cotidiano informal, permitir-se enganar.

Engodo.

CORONÁRIA

Publicado: 4 de maio de 2012 em Fatos

coronariaSentir um aperto danado; um sentir contigo que implora em não querer, mas deseja, em seu conter, ser somente libertado.

Sensação de bem estar e  angústia,  outrora sentida, hora atual, dizimada, reprimida.

sofrendoQuerer junto estar e mesmo querendo, os afazeres da labuta impedir, “ser” sofrendo.

coronaria1Desejar algo pronto e em tempo contido, mas em incontido espaçar, sentir o sofrer sem lamento, revertério, proteção, pulso forte, isolamento.

desejo1Peleja diária, negar sentimento; discutir sem assunto, proposta ou argumento. Fazer massa firme, criar acalento, argumentar com sorriso, lamentar seu tormento.

confusãoConfusão mental, árdua rotina,  ouro, prata, cobre, sal…

Diluir o sentimento e continuar a sorrir.

Pulsar firme e forte, pulsar sem sentir.

coração pulsando

VÍSCERA GLANDULAR

Publicado: 30 de abril de 2012 em Fatos

figado1Amarga sensação; sutil paladar.

Cítrica coloração; engodo, camuflar.

Porção de matéria e dor; resistir e alongar.

Vitrine do que foi visto, enfermidade, quisto. figado2

Fulvo colorir imoral, sensação retilínea e curva, antítese corporal.

Tipos contíguos, seleções e sensações. Órgão vital, falha da mescla, açúcar e sal.turva

Conceitos adquiridos, energia que se esvai; sentido não sentido, turva imagem forma e sai.figado

Bife, amargo, sabor, afago, diretriz, sancionar, dieta, devagar.

 

figado3Amarga sensação; sutil paladar.

Cítrica coloração; engodo, camuflar.

Porção de matéria e dor; resistir e alongar.

INFINITIVO

Publicado: 21 de abril de 2012 em Fatos

cotidiano6Acordar, levantar, lavar, arrumar, preparar, calçar, ligar… sair.cotidiano3

Chegar, estacionar, apertar, entrar, trabalhar, criticar, pausar, almoçar; relaxar, retornar, continuar, verificar, terminar, desligar… sair.

cotidianoVoltar, transitar, buzinar, alarmar, assustar, continuar, avançar, parar, andar, chegar…sair.

Entrar, aparar, desnudar, jantar, fartar, olhar, arrumar, preparar, ajeitar, deitar ecotidiano8 dormir.

Cotidiano do infinitivo.

MENTE

Publicado: 19 de abril de 2012 em Fatos

mente5O que falar, quando a mente quer calar? O que pensar, quando a mente quer parar? O que fazer, quando a mente quer ceder? O que prever, quando a mente, acorrenta, em labirinto aprisionada, quer somente reviver?mente

Faculdade e conhecer, inteligência, poder. Mente é encéfalo ruidoso, descuidado e fervoroso, que evapora as sensações e as transforma em ações; torna o silencioso pensar, em ruidoso executar.

mente1Pensa, vaga, flui, divaga; elabora e corrobora, se destrata, pensa e chora; mas se contrata a mente fértil, pensa pulso e revigora.

Cognição e comportamento, mente, início do tormento. Interpreta os estímulos e transforma, aos humanos, em seres uni conscientes, totalmente incongruentes, seres férteis, dependentes. mente3

Traduz os desejos, metaboliza os anseios, dá origem a imaginação, cria caos e confusão.

Mas como evoluir se a mente, indecifrável, dia desses, inconstante, não mais se deixasse abrir?

De origem latina, etimologia “mêntem”, significa pensar, conhecer e entender, e além do óbvio plano, que conduz ao desengano, serve também para medir, pois do pensar abstrato, esse é o verbo a traduzir.

Se penso pondero ideias, e se as pondero, reflito. E como conclusão, como mente em remissão, retorno ao retórico conflito:mente4

O que falar, quando a mente quer calar? O que pensar, quando a mente quer parar? O que fazer, quando a mente quer ceder? O que prever, quando a mente, acorrenta, em labirinto aprisionada, quer somente reviver?

 

RELEITURA DE MIM MESMO – TENTAR EM VÃO

Publicado: 14 de abril de 2012 em Fatos

duvidaEm algum lugar, busco a incessante certeza de estar incerto quanto ao futuro  de saber que nada sei a respeito de mim mesmo.

Pura destreza, viver inconstante; mera proeza, ser aberrante.

duvida3

Cansado de ser o que sou, almejando o ser que nunca fui, fujo de mim e só encontro eu mesmo.

Aquele que nega e é; aquele que se apega a fé; aquele que doutrina o querer e tenta, aos duvida4berros, deixar de ser.

Acredito ser possível conviver com duas personalidades, mas o certo de mim mesmo é una e pura verdade.

Tento sobreviver sem avassalar meus sentimentos, mas o sentir que me retorna é vasto calafrio, é arrogante tormento.

Tento apagar o meu verdadeiro sentir, penso em viver, ser feliz, mas o mero pensar é fantasia, é posar nu para o nada, envolto em vasta alegoria.

duvida6O eufemismo da vida é dizer-se normal, pois ser desorientado é ser triste e diferente, é resto do nada, atormentada “mente”.duvida5

Antíteses me circundam do raiar ao alvorecer. Não desejo longo manto, não desejo perecer, mas almejo pouco pranto, pois dos muitos que me cercam, poucos, na despedida, tendem a aparecer.