Hoje vi algo comum, mas que deveria, simplesmente, ser cena forte e incomum. Um bêbado deitado na sarjeta, largado, qual cometa, que vaga os céus a vadiar e em momento inoportuno, distante e apagado, cai soturno e de repente, quase sem ninguém notar!
Olhei distante, apático, acostumado a tal cena, cotidiano ordinário simplesmente a me levar. Mas fixei a cena vista, parei o meu olhar: a seu lado um quadrúpede, cachorrinho desnutrido, tão magrinho e tão ferido, fez meu coração cortar! Sou amante de animais, isso é fato popular, e esse quadro tão chocante, faz a lágrima em semblante, simplesmente transbordar.
Aproximei-me do ser, fui a ele questionar, o porquê daquela cena, o porquê daquele par. Ele me sorriu sem graça e tentou me explicar: disse que não tinha casa, disse que não tinha lar, mas tinha seu companheiro, seu cachorro escudeiro, que o protege em noites frias e consola em silêncio, seu diário lamentar.
Mostrou-me ser alguém letrado, ser vivente e estudado. Mas também mostrou na fronte ser uma alma errante, sem alegria no semblante, vivendo seu dia-a-dia, tal como o cometa errante.
Pedi-lhe o cão, para tratar e dar um lar, mas ele em tom veemente, disse simplesmente não, esse ser que me acompanha não é
“objeto” a se dar, é um ser vivente e amado, podendo até ser mal cuidado, mas é um ser que também ama, mesmo alguém jamais amado!
Surpreendeu-me o coração e entre ambas as raças, houve afago e união. Explicou-me que o “ser”, aquele
cachorrinho mal tratado, feridinho e desnutrido, era seu bem mais precioso, qual família, algo honroso. E pediu-me algo: um saco de ração. Pediu-me, como sempre pedem, mas não algo para si, pediu algo para o cão!
Comprei o tal saco pedido e levei a seu encontro. A emoção foi incontida, o choro copioso, agradeceu imensamente, sorriu farto e generoso.
A calda do cachorrinho pôs-se a movimentar e com aquela simples ração, houve alegria, irradiar. Notei que aquele ser, maltrapilho na calçada, era alguém especial e tinha também seu par. Sorriu, agradeceu, afagou, emudeceu!
Me disse que toda a alegria e toda a honra em sua vida, era ver seu cachorrinho ter dignidade e comida.
Fugiram-me as lágrimas, bem como as palavras. E o pobre mendigo sujo, pôs-se de novo a vagar. Entrou pela sarjeta, qual cometa a vadiar e foi pra longe, acompanhado, de seu amado e inseparável par.



